Num antigo esquete do programa de televisão “Vila Sésamo”, um médico trava o seguinte diálogo com o acompanhante do seu paciente:

Médico: Oh, Felizberto, não pule, novamente, de aviões!

Acompanhante: Ei, doutor, o que se espera de você é que você diga como ele vai ficar bom, e não como ele deve viver a própria vida…

Por iniciativa da Organização Mundial da Saúde, o 31 de maio passou desde 1988 a ser conhecido como o Dia Mundial sem Tabaco. Na data, se encoraja 24 horas de abstinência de todas as formas de consumo de tabaco e se propõem campanhas para alertar sobre os males causados pelo fumo. Além de tratar dos problemas decorrentes do tabaco, a data abre espaço para que se discuta os limites da atuação dos médicos ao tentar mudar os hábitos dos seus pacientes.

As estatísticas sobre fumantes são chocantes. Estima-se que haja mais de 1,2 bilhão de pessoas que fumam no mundo. Relatório do Banco Mundial e OMS projeta 2 bilhões de fumantes em 2025. No Brasil, dados de 2013 do Ministério da Saúde e do IBGE estimam que 14,7% da população maior de 18 anos fumem – cerca de 22 milhões de pessoas.

A OMS reconhece o tabagismo como uma doença crônica causada pela dependência da nicotina. O hábito de fumar está relacionado a mais de 90% de todos os casos de câncer de pulmão. A cada ano, morrem mais mulheres por causa de câncer de pulmão do que câncer de mama. Além disso, o tabagismo está relacionado ao surgimento de câncer de intestino, bexiga, pâncreas, fígado, esôfago, estômago. Uma verdadeira tragédia oncológica.

Mas o resultado de fumar não se restringe a variadas formas de câncer. O tabagismo está associado ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares e cerebrais. As substâncias presentes no fumo aumentam a pressão arterial e os batimentos cardíacos, danificam as paredes das artérias e facilitam a formação de coágulos. Estas alterações levam a maior número de infartos, acidentes vasculares cerebrais e amputações. Os produtos do tabaco são responsáveis pela morte de seis em cada dez consumidores.

O custo anual estimado pela OMS das doenças associadas ao tabagismo e da perda de produtividade é da ordem de US$ 1,4 trilhão. No Brasil, dados do Instituto Nacional do Câncer indicam 428 mortes diárias, e um custo anual de tratamento e perda de produtividade de R$ 56,9 bilhões.

Há ainda estatísticas não menos chocantes sobre o desenvolvimento de doenças pulmonares, sobre o tabagismo em crianças, sobre os efeitos do tabagismo em grávidas e nos fetos e recém-nascidos, sobre os problemas de saúde que se desenvolvem em quem convive com o fumante, sejam adultos ou crianças.

O tabaco representa enorme desafio econômico e de saúde pública para todos os países, principalmente para os mais pobres ou em desenvolvimento. A OMS estima que 80% das mortes prematuras ocasionadas pelo tabagismo ocorrem nos países mais pobres.

Grandes somas de dinheiro são gastas com os custos das doenças relacionadas a ele. Recursos que poderiam ser aplicados em educação, saneamento e saúde. O cultivo de tabaco ocupa grandes áreas de terra, utiliza grande quantidade de pesticidas e fertilizantes que poluem as fontes de água e degradam o ambiente. A produção de cigarros resulta em 2 milhões de toneladas de resíduos sólidos anualmente.

Os países ricos como EUA, Japão e nações da União Europeia diminuíram o número de fumantes em 50% nas três últimas décadas. China, Índia, Rússia, Indonésia não tiveram, em média, diminuição superior a 15%. O Brasil é uma notável exceção entre emergentes – nesse período reduziu em 50% o número de fumantes.

Segundo dados da Associação dos Fumicultores do Brasil, os maiores produtores de tabaco – China, Brasil e Índia – são juntos responsáveis por 50% da oferta mundial. O Brasil exporta quase 90% da produção, a Índia exporta cerca de 40% e a China é grande importadora.

A indústria do tabaco é um oligopólio mundial. Apenas seis grandes companhias controlam 80% do mercado. A maior delas é a China National Tobacco Corporation, estatal que detém 37% do mercado global, Philip Morris International detém 17% do mercado e a Britsh American Tobacco, outros 12%. A Japan Tobacco International, a britânica Imperial Tobacco e a norte americana Altria Group completam o grupo.

A 6ª edição do Atlas do Tabaco, publicado em 2018 pela American Cancer Society e pela Vital Strategies (uma das maiores organizações filantrópicas que auxilia governos a implantar estratégias de saúde pública), reportou que, em 2015, o lucro líquido dessas companhias foi de mais de US$ 62 bilhões e o investimento em publicidade, de US$ 9,5 bilhões. Dados de 2010 revelam que o lucro desses produtores de cigarros é maior do que a soma dos lucros da Coca-Cola, Microsoft e McDonald’s neste mesmo ano. É uma indústria poderosa, organizada e com grande poder de lobby.

Parar de fumar é difícil, mas não impossível. O principal obstáculo não é a dependência da nicotina, mas a dependência psicológica do hábito de fumar. Medicamentos são um auxílio secundário. Grupos de apoio ajudam muito. Recaídas são comuns e esperadas, nenhum fumante deve se sentir desencorajado por isso. Tentar novamente é o que se deve fazer, tentar e tentar até conseguir.

Para os governos interessados em diminuir a incidência das doenças associadas ao tabagismo e os custos de tratamento, a estratégia mais eficaz tem sido a taxação do cigarro. A OMS estima em US$ 300 bilhões anuais os impostos recolhidos pelos governos da indústria do cigarro. Essa arrecadação, entretanto, não justifica a manutenção da epidemia de tabagismo por conta dos interesses financeiros dos governos.

As restrições à publicidade que estimula jovens a começar a fumar e fumantes a manter o hábito é outra estratégia de efeitos comprovados. Restrição ao fumo em lugares públicos também é uma ação eficaz. Foi a implementação coordenada dessas ações que levou à queda no número de fumantes no Brasil.

Aqui voltamos ao esquete de “Vila Sésamo”. É dever de ofício do médico alertar os indivíduos sobre os problemas relacionados ao tabagismo e ajudá-los a parar de fumar. Mas também é dever das sociedades médicas propor medidas de saúde pública que diminuam o hábito de fumar na sociedade. Felizberto deve ser tratado após pular do avião, mas deve ser fortemente orientado a não fazer isso novamente.

Quem lê, aqui, um discurso autoritário de controle social da liberdade individual não está atento aos interesses econômicos envolvidos, à tragédia evitável das mortes precoces e à grande competência estratégica da indústria do tabaco na busca de novos mercados.

No final da festa a conta chega. Para o indivíduo e a para a sociedade.

 

Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 07 de junho de 2019

//www.valor.com.br/cultura/6295603/iran-goncalves-jr-os-custos-do-habito-de-fumar

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