Meu amigo querido está internado há mais de um mês. No inverno do ano passado sofreu um bocado, mas não precisou ser internado. Ele tem problemas pulmonares relacionados ao tabagismo. Como quase todo fumante brasileiro da sua idade, começou a fumar cedo, como um dos ritos de passagem para a vida adulta. Não fumou durante muito tempo e nem foram muitos cigarros por dia, mas o suficiente para que desenvolvesse um certo grau de enfisema pulmonar com o passar dos anos.

Ele está internado porque não tolera respirar o ar da cidade de São Paulo, principalmente durante o inverno. Caso residisse em outra cidade, meu amigo não sofreria, a cada inverno, o mesmo grau de dificuldade respiratória. Na falta dos sofisticados equipamentos que a Cetesb dispõe e que permitem uma monitoração adequada da qualidade do ar, meu amigo poderia ser o sinal de alerta para o nível de poluição.

Quando ele sentisse falta de ar ou a tosse piorasse, seria um sinal de alerta de que a qualidade do ar estava piorando. Quando ele fosse internado, seria um aviso de que é melhor não sair de casa. Talvez ele queira criar uma startup e desenvolver um aplicativo do drama de respirar em São Paulo…

A Cetesb disponibiliza os dados diários da qualidade do ar na região metropolitana da cidade no site bit.ly/2ylVQtT. No momento em que escrevo este texto, a qualidade está no nível N2, “Moderada”, com o poluente que caracteriza essa classificação no índice 76. Se esse poluente chegar em 81, a qualidade do ar vai para N3, “Ruim”.

Meu amigo não está mais tolerando esse N2 muito próximo do N3. A secreção pulmonar piora, a quantidade de oxigênio no sangue cai, a radiografia de tórax piora, a frequência cardíaca sobe. O ar da cidade sufoca o meu amigo.

Podemos, literalmente, “ver” a poluição do ar. Quando olhamos para o horizonte, a partir de qualquer ponto da cidade, notamos que o céu deixa de ser azul quanto mais próximo ao solo. A impressão óptica é de uma névoa esbranquiçada mais abaixo e o céu azul mais acima. Essa coloração esbranquiçada e brilhante se deve ao acúmulo de partículas de poluentes nas camadas mais baixas da atmosfera. Nos dias mais poluídos vemos uma coloração marrom escura. Nos fins de tarde esses mesmos poluentes são os responsáveis pela bela paleta de cores do pôr do sol. Bela, porém tóxica. É nessa massa de poluição que vivemos, é ela que respiramos.

Crianças são a outra faixa etária muito sensível aos efeitos da poluição atmosférica. Tenho um outro amigo querido, ainda na infância. Meu amiguinho não consegue brincar. Tosse com frequência, fica cansado quando corre, tem que usar inalador, o pulmão fica com chiado. O ar da cidade sufoca o meu amiguinho.

A principal causa da poluição atmosférica em São Paulo não é a atividade vulcânica da cidade ou consequência de chuvas de meteoros. É a emissão de poluentes relacionados aos automóveis. Os dados são conhecidos e mensurados há anos. Temos cientistas de renome que realizam pesquisas publicadas nas mais importantes revistas internacionais, são consultores de organismos internacionais.

Por que, então, ainda sofremos com isso? Qualidade do ar não dá voto? Diga, amigo leitor, qual o programa de controle da qualidade do ar que você conhece? Não lembrou de nenhum? É porque eles não existem como política de longo prazo. O que respiraremos em 5, 10 ou 20 anos? Você não tem ideia? Nem eu.

Provavelmente alguém que se sinta incomodado vai tirar da gaveta um plano de ação que supostamente já existe e que nós, ignorantes, desconhecemos. Quem quiser, que compre. O fato é que se não houver um amplo acordo, com prazos e metas, entre refinarias de petróleo, fábricas de motores, órgãos de controle com poder de decisão e nós, o tal do povo, nada sairá do papel e seguiremos na mesma toada de hoje.

O ar que respiramos hoje tem um efeito deletério sobre todos nós. Hoje, suportamos os tais níveis N2 e N3 – a escala vai até N5-, mas a que preço e por quanto tempo? Diferentemente de quem já sofre com a qualidade do ar, muitos de nós ainda não associamos diversos sintomas que apresentamos à poluição. Pensamos: “Todos no escritório estão com uma virose” ou “Estou desidratado” ou “O ar-condicionado estava muito gelado”. Muito provavelmente o que está acontecendo é que estamos respirando um ar que nos faz mal.

Diversos estudos descrevem a associação do ar poluído com o desenvolvimento de diversas doenças pulmonares, cardiovasculares e oncológicas no futuro. Quando você for ao médico e for questionado sobre seus hábitos de saúde, mesmo que nunca tenha fumado, não se esqueça de falar há quanto tempo vive em São Paulo. Esse tempo de exposição ao ar poluído pode explicar uma grande quantidade de sintomas e doenças.

Essa situação não é insolúvel. Outras grandes cidades conseguiram controlar e melhorar a qualidade do ar. As ferramentas existem, a pressão dos grupos mais afetados existe, o conhecimento dos especialistas existe. Falta a decisão dos que são responsáveis pelas políticas públicas.

Meus dois amigos têm outros amigos que vivem na cidade. Somos mais de 12 milhões de pessoas. Ficamos com os olhos avermelhados, rinite, sinusite, dor de garganta, sensação de boca seca. Ficamos irritados, insones, cansados para trabalhar e para o lazer, desanimados sem saber o porquê. O ar da cidade nos sufoca.

Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 03 de agosto de 2019

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