Amigo leitor, você conhece a terrível expressão: ‘burn out’? Significa que alguém “pirou total”, não resistiu às demandas do trabalho. A história é sempre a mesma, o cidadão já não estava rendendo adequadamente. Chegava atrasado, não cumpria prazos, não se envolvia como antes no dia a dia do trabalho. Estava comprometendo as metas.
Voltou a fumar, foi visto bebendo. Passou a tomar calmantes e antidepressivos. Alguns comentavam em voz baixa que talvez usasse substâncias ilícitas. Oscilava entre um comportamento irascível e a franca depressão. Envolveu no seu problema familiares, amigos, companheiros de trabalho. Foi parar algumas vezes no pronto-socorro com suspeita de infarto, procurou um cardiologista, um clínico e um psiquiatra. Dizem que fez terapia. Medicina alternativa, integrativa, energética, também. Fez coaching, programação neurolinguística e algumas outras coisas que o RH sugeriu. Procurou ajuda religiosa.
Mas ninguém pôde ajudá-lo. Julgou-se que o melhor era ele partir em busca de novos desafios. Parece que até ele concordou. Assim foi feito. O sujeito que entrou no lugar é muito profissional. Seguimos em frente. Como era o nome dele mesmo?
Essa situação tem se tornado cada vez mais frequente. Será que a força de trabalho de nossa sociedade tem se tornado mais frágil? Estamos falando de pessoas que estudaram muito e se esforçaram para chegar aonde chegaram. Ultrapassaram diversos obstáculos e se deixam abater pelos desafios do trabalho? “Burn out” entre médicos também tem sido descrito mais amiúde. Logo nós, que sempre fomos descritos como exemplo de profissionais “automotivados”. Parece-me que está faltando uma peça neste quebracabeças.
Pedindo licença para Guimarães Rosa que, em “Grande Sertão: Veredas”, autoriza a especulação “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”, apresento a peça que me parece faltar. Penso que uma tremenda situação semelhante ao assédio moral invadiu o modo de funcionar dos ambientes de trabalho. Metas, prazos, controles, previsões, resultados trimestrais, estímulo à competição desenfreada, bônus, multiplicidade de tarefas, pouco tempo para treinamento, pouco espaço para se expressar, quase nenhum espaço para se manifestar, são algumas das características deste processo de assédio moral.
O leitor pode completar a lista e pensar em mais algumas exemplos de sua realidade. Essas situações se caracterizam por afetar a todos indiscriminadamente. A cultura organizacional pode tornar o ambiente de trabalho estressante, tóxico, tenso. Não é um ato contra uma pessoa, que caracteriza o bullying, mas um meio ambiente que agride a todos.
Vive-se realidade semelhante à de Josef K., personagem de “O Processo”, de Franz Kafka. Processado e preso, Josef não é informado de que é acusado, não tem, portanto, como se defender. O cerco vai se fechando e, ao final, o personagem é executado.
Quando questionados sobre o que ou quem os aflige, as vítimas dessa situação de assédio moral organizacional não sabem o que responder, não sabem precisar a origem do seu sofrimento. Se não há a quem culpar, não há a quem recorrer, então a culpa deve ser delas mesmas, afinal os outros estão aguentando.
Talvez a despersonalização seja o principal agressor no ambiente de trabalho. “Ninguém quer saber a sua opinião, entregue apenas o que foi solicitado.” Tal frase, escutada ou pressentida uma vez, pode passar como uma pequena desconsideração. Porém, tornada rotina, coisifica o sujeito. Transforma o ser humano em peça de engrenagem. Desumaniza o homem.
Softwares que controlam diretamente o desempenho já existem. Funcionários podem ser demitidos sem receber explicação ou sem que alguém da empresa se interesse em saber o que está por trás das informações. Seu filho está doente? Problema seu. Reitero que as vítimas não são apenas os trabalhadores do chão de fábrica, toda a hierarquia da empresa é vítima potencial, “blue e white collars” estão no mesmo barco.
Recentemente, um paciente totalmente esgotado pelas condições adversas de seu trabalho, me disse uma frase que representava sua rendição à inevitabilidade da sua condição clínica de “burn out”: “Doutor, CNPJ não tem coração…”
O desgaste no trabalho tem atenção das economias desenvolvidas. Não é mais encarado apenas como “chororô” de funcionário incompetente, o desgaste pode ser contabilizado.
A Organização Mundial de Saúde estima em mais de 260 milhões o número de pessoas afetadas pela depressão e pela ansiedade globalmente. O custo estimado da perda de produtividade e absenteísmo com licença médica atinge mais de US$ 1 trilhão, anualmente.
O Fórum Econômico Mundial e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) desenvolvem campanhas e orientações sobre como melhorar as condições de trabalho e mitigar o desgaste psicológico dos funcionários.
Enfim, amigo leitor, espero que você não esteja vivenciando esse tipo de problema. Torço para que você sinta que é valorizado e contribui para o sucesso da empresa em que trabalha.
Se, contudo, os sinais e sintomas de “burn out” começarem a se manifestar em você ou num colega, antes de pensar que vocês são pessoas fracas e desmotivadas, procure olhar ao redor e ver se não estão sendo vítimas de assédio moral.
Talvez você descubra não se encaixar mais na cultura organizacional, explicita ou implícita, da empresa. Esta constatação talvez não segure seu emprego, mas, com certeza, você não se sentirá o grande culpado da situação.
É muito melhor procurar os tais dos novos desafios quando não se está totalmente destruído emocionalmente e fisicamente. “No centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!”, diz ” Grande Sertão: Veredas”.
Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 06 de setembro de 2019