Todos queremos viver mais

Atualmente há uma indústria voltada para a terceira idade, para a melhor idade ou qualquer outro eufemismo que descreva os idosos, pronta para oferecer produtos e serviços que, na maioria das vezes, não levam em consideração as consequências do processo de envelhecimento. Nos apelos do marketing, os idosos são instados a procurar como que um rejuvenescimento que permita que retornem a uma capacidade física e mental de anos passados.

Senescência é o termo médico utilizado para descrever os processos biológicos que ocorrem nos organismos com o passar do tempo, processos estes que promovem modificações no funcionamento do organismo que não caracterizam uma doença, mas que são, com frequência, assim interpretadas. No livro “A República”, Platão descreve um diálogo entre Sócrates e Céfalo, no qual o filósofo questiona o anfitrião sobre como é viver tendo atingido uma idade avançada. Céfalo responde que lamenta a falta de vigor físico, o maior cansaço e a perda dos prazeres do corpo, mas não se descreve como doente, apenas idoso.

No processo normal de envelhecimento há perda de massa muscular; perda de massa óssea; aumento da gordura corporal; diminuição das capacidades cardíaca, pulmonar, gastrointestinal, endócrina e renal; diminuição da estatura; tendência à perda de peso; despigmentação e perda capilar. Há diminuição da acuidade dos sentidos: tato, audição, visão, paladar e olfato, o que faz com que os sinais do mundo externo cheguem alterados ao cérebro dos idosos.

O cérebro diminui de tamanho, há diminuição do número de neurônios e dos neurotransmissores; essas alterações tornam as funções neurológicas mais lentas, caracterizadas pela diminuição do desempenho intelectual, dos reflexos e da capacidade de memorizar fatos recentes. As alterações neurológicas levam a perturbações afetivas que alteram o comportamento habitual ou que se manifestam como sintomas de ansiedade, depressão ou agressividade. As alterações comportamentais levam o idoso a ser visto como teimoso, conservador, arraigado às ideias antigas, intratável, um peso para a família e sociedade.

A herança genética, que é a responsável por como e quando as alterações biológicas irão se manifestar, associadas às condições nas quais transcorreu a vida de cada um, fará com que cada indivíduo manifeste estas modificações associadas ao envelhecimento de modo particular, mesmo comparando-se a indivíduos da mesma idade. A vida como ela é, diria Nelson Rodrigues.

Conhecer essas modificações do corpo pode suscitar o medo do inevitável, medo que paralisa, ou servir de alerta para o fato de que quanto mais longevos ficamos, maior a probabilidade de experimentarmos as consequências do envelhecimento e nos preparar, como indivíduo e como sociedade, para enfrentar estes desafios. Podemos hoje minorar a magnitude de alguns desses processos. Uso de óculos ou aparelhos auditivos são exemplos óbvios.

Quando se comparam idosos de uma mesma faixa etária, aqueles que fazem atividades físicas e intelectuais de forma rotineira apresentam menor comprometimento físico e mental. Cuidados com alimentação e peso, ausência de tabagismo e atividade física rotineira previnem o desenvolvimento de doenças que, por incidirem mais em pessoas idosas, parecem inexoráveis, como a hipertensão, as doenças cardiovasculares, diabetes e câncer. Diagnosticar precocemente e tratar adequadamente essas e outras doenças diminui seu impacto sobre o envelhecer saudável.

Além dos cuidados individuais, uma sociedade que se preocupa e se ocupa com o envelhecimento deve promover facilidades para seus idosos, desde a básica conservação de calçadas até políticas de saúde que envolvem toda a comunidade. Na Holanda, a organização Humanitas, fundada em 1945, após a Segunda Guerra, desenvolveu um projeto que coloca idosos e universitários para morarem na mesma residência. Para os universitários o ganho imediato é não pagar aluguel em troca de auxiliar os idosos no dia a dia.

O maior ganho, porém, é a quebra do isolamento social dos idosos, que são estimulados a realizar atividades físicas e mentais com os universitários, e o aprendizado para os jovens sobre o que serão suas necessidades futuras. Esse aprendizado estimula mudanças nas políticas públicas para os idosos demandadas pelos membros ainda jovens da sociedade. A falta de políticas públicas para integrar o idoso na sociedade transfere para as famílias todo o ônus do cuidado.

A atual configuração das famílias, pequenas, atarefadas, mães e pais trabalhando, não permite a atenção adequada e aumenta o isolamento dos idosos que se transformam em problema e são considerados como um assunto médico. A medicalização da senescência resulta em aumento dos custos da saúde, com realização de exames para investigar processos naturais que, muitas vezes, levam à solicitação de outros exames para investigar os achados do exame anterior, numa espiral que inclui utilização de medicamentos e realização de procedimentos desnecessários que trazem risco ao próprio paciente.

A expressão “Polifarmácia do Idoso” descreve a utilização de múltiplos medicamentos nos pacientes idosos. Estudos mostram que 50% ou mais desses medicamentos são desnecessários; a mesma espiral de se acrescentar um medicamento para melhorar o efeito colateral do outro, se repete. As interações medicamentosas entre esses diversos fármacos são desconhecidas, particularmente no organismo do idoso, e o risco ao paciente aumenta ainda mais. Este é um problema mundial.

Essa pressão da medicalização alimenta o discurso dos financiadores públicos e privados da saúde que repetem a necessidade de se elevar os impostos ou os preços dos planos de saúde, porque a população está envelhecendo e o idoso gasta muito. Quando Sócrates pergunta a Cleófas se a velhice é a fase mais difícil da vida, esse responde que não é a velhice a culpada das queixas dos idosos e dos seus familiares, e sim o caráter de cada um; que a velhice é um fardo suportável para quem viveu com moderação e bom temperamento e, diz ainda, que não só a velhice, mas a mocidade pode ser penosa para quem, daquela maneira, não viveu. Todos queremos viver mais, todos viveremos mais. Nos preparemos para isso.

 

Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 11 de maio de 2018

//www.valor.com.br/cultura/5517549/todos-queremos-viver-mais

Que doenças matam as mulheres?

Quando não sabemos quais são as doenças mais frequentes para nossa faixa etária e nosso sexo, ficam mais difíceis a prevenção, o diagnóstico e o tratamento. Durante décadas as doenças cardiovasculares foram consideradas típicas dos homens. Esse viés contaminou o ensino médico, a percepção que as mulheres têm dos seus problemas de saúde e, pior que tudo, prejudicou o diagnóstico e o tratamento das mulheres que procuram um pronto-socorro ou consultório médico com sinais e sintomas que não são interpretados corretamente.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, o infarto agudo do miocárdio é a maior causa de óbitos em mulheres a partir da quinta década de vida na Europa e nas Américas. Quanto mais idosas as mulheres, maior o número de mortes causadas por doenças cardiovasculares e suas complicações e menor o número de mortes causadas pelos diversos tipos de câncer Na faixa etária dos 30 aos 49 anos de idade, nas mesmas regiões, o infarto é a segunda maior causa, perdendo por pouco do câncer de mama.

Quanto dos leitores e das leitoras tinham ideia da magnitude desses números? Eles são o fundamento de uma grave tendência – a mortalidade das mulheres que sofrem infarto agudo do miocárdio é maior que a dos homens, e essa maior mortalidade se mantém nos anos que se seguem após o infarto.

As causas que levam a esse fenômeno não são completamente compreendidas. Costuma-se separar as razões em dois campos, um deles relacionado a fatores biológicos próprios do sexo feminino, como variações hormonais, metabolismo e respostas orgânicas diferentes das do sexo masculino. O outro é relacionado aos papéis sociais cada vez mais demandantes e estressantes assumidos pelas mulheres nas últimas décadas.

Quaisquer que sejam as causas, o fato é que os sintomas clássicos de dor de origem cardíaca ou as manifestações do infarto não se apresentam nas mulheres do mesmo modo que nos homens, e aí se encontra a armadilha que contribui para a maior mortalidade feminina. Por não estarem atentas para a realidade do infarto, as pacientes interpretam esses sinais e sintomas iniciais como se fossem de outra causa, por exemplo, de origem muscular, emocional, gastrointestinal, só procurando auxílio médico quando julgam que algo muito diferente está ocorrendo.

Quando chegam ao pronto-socorro, as queixas também são interpretadas erroneamente, como se fossem emocionais ou de outras causas. São infindáveis os relatos de pacientes que não passam por um simples eletrocardiograma ao chegarem aos setores de emergência dos hospitais ou para as quais os exames específicos para diagnóstico não são solicitados porque o “quadro não era típico”. A consequência, nos casos de infarto, é que se perde muito tempo antes que o tratamento efetivo seja instituído. Isso se a paciente não for liberada sem o diagnóstico correto. Essa é uma tragédia que ocorre todos os dias, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Há artigos científicos americanos, europeus, asiáticos e brasileiros que relatam que mulheres recebem menos medicação para tratar o infarto e fazem menos cateterismos e angioplastias que pacientes do sexo masculino. Quando recebem as medicações e se submetem às intervenções, isso ocorre com um atraso maior que o dos homens, o que diminui a eficácia do tratamento e aumenta a mortalidade e as sequelas remanescentes.

Como se não bastasse, mulheres são geralmente sub-representadas nos grandes estudos que definiram qual o melhor tratamento para o infarto. Na população geral, mulheres são 50% do total. Mas, em muitos estudos, elas são 20 a 30% dos pacientes recrutados, o que significa que os resultados do estudo são fortemente influenciados pelos efeitos apresentados nos homens, não necessariamente se aplicando às mulheres na mesma intensidade e no mesmo risco.

Como melhorar esse quadro? O primeiro passo é voltar ao título deste texto. Tomar conhecimento de que o que mata mulheres são doenças cardiovasculares, em particular o infarto e o acidente vascular cerebral. O que as mulheres devem fazer? Procurar auxílio médico sempre que sentir desconforto torácico, respiratório ou sintomas que podem ser confundidos com os de ansiedade como sudorese, falta de ar, sensação de perigo iminente, dores que se assemelham a dores musculares, formigamentos.

As sociedades médicas que congregam os profissionais que trabalham com urgência e emergência têm realizado esforços para chamar atenção para esse problema em cursos e congressos. Prevenir as doenças cardíacas funciona para ambos os sexos, ter uma dieta saudável, manter o peso adequado, evitar bebidas alcoólicas, parar de fumar, fazer atividade física rotineiramente, cuidar da ansiedade e depressão, tratar a hipertensão, o diabetes, os níveis elevados de colesterol. Conhecer os próprios riscos é a melhor maneira de diminuí-los.

 

Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 13 de abril de 2018

//www.valor.com.br/cultura/5449311/que-doencas-matam-mulheres