O impacto de tais acidentes do percurso civilizatório era local, desprezível em termos populacionais planetários. A situação é muito diferente quando multidões invadem e destroem ecossistemas estabelecidos.

Coronavírus são uma família de vírus bem caracterizada desde a década de 1960. Nos humanos são responsáveis, principalmente, por doenças das vias respiratórias altas, que atingem faringe, laringe e seios nasais. Produzem resfriados, laringites, faringites e sinusites que, em geral, se resolvem sem tratamento específico. Mais raramente, podem atingir os pulmões e causar pneumonia viral, um quadro mais grave.
Essa família de vírus está presente em muitos animais selvagens, incluindo aves e mamíferos. A transmissão entre humanos e animais não é comum quando os hábitats naturais dos bichos são respeitados e não há interação frequente entre os animais portadores e humanos.
Mutações genéticas do vírus ou exposição não usual de seres humanos aos vírus selvagens podem fazer com que haja transmissão entre animais e humanos. A partir dessa primeira transmissão, o vírus pode sofrer nova mutação e ser capaz de se transmitir de um ser humano para outro. É o caso do vírus anunciado pelas autoridades chinesas em dezembro de 2019.
O alerta foi dado pela ocorrência de um surto de pneumonia em pacientes que frequentavam um mercado que vendia carne de animais selvagens — carne de caça — na cidade de Wuhan. Um novo coronavírus foi identificado. Ele é geneticamente diferente dos outros seis tipos conhecidos anteriormente com capacidade de infectar humanos e serem transmitidos de uma pessoa para outra.
Acredita-se que a carne de animais contaminados vendida naquele mercado tenha propiciado o contato com vírus capazes de infectar humanos e causar doença.
Wuhan é uma cidade industrial estratégica para a China central, tem mais de 11 milhões de habitantes e é um importante centro de passagem de transportes, com rodovias, ferrovias e aeroportos que a ligam a todo país e ao exterior e grande tráfego de pessoas. É conhecida, por seu poderio industrial e ligações com o mundo, como a Chicago chinesa. Nenhum roteirista de Hollywood poderia escolher uma cidade melhor para se iniciar uma epidemia mundial num filme de catástrofe.
As doenças virais são transmitidas antes de a pessoa contaminada ter sinais e sintomas claros. Um pouco de tosse, um pouco de febre ou mal-estar e o paciente já pode transmitir o vírus. Esse fenômeno explica a rapidez com que o vírus se espalhou pelo mundo. Poucos dias após o alerta do governo chinês, pacientes infectados foram descritos em locais tão distantes quanto os Estados Unidos e a Alemanha.
O governo chinês implementou as medidas clássicas para controle da disseminação do vírus: fechou os mercados que vendiam produtos animais, suspendeu atividades que reúnem grandes grupos de pessoas, proibiu viagens, mantém Wuhan e cidades próximas em quarentena, cancelou, na região, as tradicionais comemorações do ano-novo lunar. Há fotografias recentes de Wuhan que mais parecem as de uma cidade fantasma ou sitiada. São as condutas adequadas para tentar controlar o avanço de epidemias.
Pouco se sabe sobre a capacidade de contágio e de causar doença grave do vírus, ainda há poucos dados científicos para serem analisados. Não há um teste laboratorial rápido disponível para diagnóstico. Os casos diagnosticados na China e nos outros países exigiram uma complexa e cara pesquisa genômica, com tecnologia disponível apenas em grandes centros.
Não há vacina ou tratamento específico para esse vírus. O tratamento disponível hoje é o que chamamos de sintomático ou de suporte: se está com febre, recebe antitérmico, se está com tosse, recebe medicamento para controle do sintoma.
Pacientes com acometimento pulmonar grave e insuficiência respiratória deverão ser admitidos em hospital, e aqui aparece o problema das grandes epidemias: não há recursos disponíveis, em nenhum país, por mais rico que seja, para atender milhões ou milhares de pessoas ao mesmo tempo. É como se quiséssemos enfrentar um tsunami ou terremoto enquanto o fenômeno acontece. Simplesmente não há o que fazer; depois podemos mitigar os danos da melhor maneira possível.
A rapidez com que o vírus vai se alastrar depende de sua capacidade de contágio, que pode ser alterada com eventuais novas mutações. A severidade da doença e a letalidade do vírus também ainda estão por serem determinados.
Essa situação deve nos fazer ficar cada vez mais cientes que, por óbvio que seja, habitamos o mesmo planeta. Tradições de uma região, como o consumo de carne de caça, quando realizadas por pequenos agrupamentos humanos, possivelmente não causam malefício, ou, se causam, é limitado ao pequeno grupo. Isso inclui até mesmo o extermínio do grupo, fato que deve ter ocorrido incontáveis vezes na história até que aprendêssemos qual planta ou animal era comestível e qual não era.
O impacto de tais acidentes do percurso civilizatório era local, desprezível em termos populacionais planetários. A situação é muito diferente quando multidões invadem e destroem ecossistemas estabelecidos. A consequência dessa invasão é que abre-se a caixa de Pandora da natureza e ameaças desconhecidas, no caso vírus selvagens que viviam em equilíbrio com seus hospedeiros, entram em contato com espécies sem defesa imunológica apropriada, no caso, nós. A escala, agora, é mundial.
Esse texto não se pretende alarmista, mas o modo como tratamos a natureza é alarmante. Diz a lenda que a esperança ficou retida na caixa de Pandora, restando algum alento aos homens. Tomara que tenha ficado um pouco de juízo também.
Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 01 de novembro de 2019



Amigo leitor, você conhece a terrível expressão: ‘burn out’? Significa que alguém “pirou total”, não resistiu às demandas do trabalho. A história é sempre a mesma, o cidadão já não estava rendendo adequadamente. Chegava atrasado, não cumpria prazos, não se envolvia como antes no dia a dia do trabalho. Estava comprometendo as metas.
Meu amigo querido está internado há mais de um mês. No inverno do ano passado sofreu um bocado, mas não precisou ser internado. Ele tem problemas pulmonares relacionados ao tabagismo. Como quase todo fumante brasileiro da sua idade, começou a fumar cedo, como um dos ritos de passagem para a vida adulta. Não fumou durante muito tempo e nem foram muitos cigarros por dia, mas o suficiente para que desenvolvesse um certo grau de enfisema pulmonar com o passar dos anos.
Onde está sua carteira de vacinação, amigo leitor? Sim, a sua, não a dos seus filhos ou netos. Não faz ideia? Nem sabia que tinha uma? Se você nem sabe o que é isso, então a situação é grave. Carteira de vacinação é o documento com o registro das vacinas que você já tomou e o lembra daquelas que você ainda precisa tomar. Parece uma preocupação que diz respeito a bebês e crianças, mas é importante para todas as idades.
Num antigo esquete do programa de televisão “Vila Sésamo”, um médico trava o seguinte diálogo com o acompanhante do seu paciente:
Quando somos submetidos a um exame físico ou realizamos um exame de laboratório ou de imagem, a primeira questão que vem à mente é se o resultado foi normal. Entendemos a palavra “normal” como antônimo de “anormal” e, se é “anormal”, deve ser doença. Nos exames de laboratório comparamos nosso resultado com os “valores de referência”, geralmente impressos à direita do resultado. O laboratório, muitas vezes, imprime o resultado em uma cor diferente se o resultado está “fora da faixa” e já retornamos ao médico com a certeza de que estamos doentes.
Leitor, uma “variável” é uma determinada característica que é mensurável e que nos interessa conhecer em um estudo científico. Em um estudo sobre nutrição, podemos investigar variáveis como o peso no início do estudo, o peso ao final do estudo, a quantidade de calorias ingeridas, a altura e a idade dos participantes. Quando se trata de variáveis expressas por números, podemos separá-las em dois tipos: as variáveis numéricas contínuas e as variáveis numéricas discretas.