
Eras geológicas são os períodos em que se divide a história do planeta desde a sua formação, há estimados 4,6 bilhões de anos, até a contemporaneidade. São definidas por meio de marcos geológicos (como o tipo de rocha existente em cada período) e fósseis de micro-organismos, plantas e animais, quando existentes. Essa datação permite compreender a história evolutiva do planeta.
A era atual é chamada de Holoceno, palavra que vem do grego “holos” (todo ou inteiro) e “kainos” (novo). A combinação resulta em “inteiramente recente”. A datação se baseia no término da última glaciação, há 11,65 mil anos. O Homo Sapiens já havia se desenvolvido como espécie separada dos outros hominídeos, saído da África e chegado a Europa e Ásia. Viviam como caçadores coletores em pequenos grupos nômades, sem capacidade de influenciar as condições ecológicas do planeta.
A criação da agricultura (Revolução Neolítica) ocorreu há 10 mil anos e deu origem aos primeiros assentamentos urbanos estáveis. Houve domesticação de animais em escala, desenvolvimento da metalurgia, comércio, aumento na população e desenvolvimento das primeiras civilizações no Oriente Próximo e Extremo Oriente. A partir do neolítico já é possível observar evidências do uso de queimadas para a derrubada de florestas, para aumentar as terras disponíveis para a agricultura, e do manejo dos rios para o cultivo do arroz.
O cientista holandês Paul Jozef Crutzen, Nobel de Química em 1995 graças a estudos sobre a rarefação da camada de ozônio na atmosfera (o “buraco na camada de ozônio”), publicou em 2002 um artigo afirmando que, a partir da Revolução Industrial, a ação dos seres humanos passou a modificar a composição da atmosfera e o ecossistema. Essa modificação se evidenciou inicialmente pelo aumento da quantidade de dióxido de carbono e gás metano presentes na atmosfera atual. Crutzen propôs o termo Antropoceno, que deriva do grego “anthropo” (homem), para indicar esta era na qual a humanidade é capaz de influenciar ecossistemas. Considera-se que a partir da década de 50 houve uma aceleração da capacidade humana de afetar os ecossistemas.
O termo “grande aceleração” descreve a expansão populacional, a criação de novos processos industriais, agrícolas e extrativistas, o desenvolvimento de materiais minerais derivados de petróleo, plásticos, compostos orgânicos e inorgânicos que resultaram na poluição do ar, da terra e do mar, aumento da temperatura da atmosfera e de mares, perda da biodiversidade, da cobertura vegetal do planeta, modificações das características químicas dos mares. Essas modificações, em larga escala e curto espaço de tempo, ultrapassam a capacidade de equilíbrio dos sistemas ecológicos.
As alterações ambientais resultantes dessa aceleração representam um tremendo desafio para todas as formas de vida. A apropriação de terra para agricultura, pastagem e mineração reduz a quantidade de solo para outras espécies animais e vegetais. Modificações na temperatura e composição dos mares, da atmosfera e do solo submetem micro-organismos que estão na base das cadeias alimentares a tremendos desafios para a sobrevivência. O desaparecimento de insetos, plantas e animais, terrestres ou aquáticos, é maior do que o controle histórico e constitui o início da sexta extinção em massa no planeta.
Os desafios para a saúde humana são proporcionais aos desafios ao planeta. A elevação da temperatura global tem produzido ondas de calor que aumentam a mortalidade de idosos e crianças, mesmo em regiões de alto desenvolvimento econômico. Na onda de calor de 2003 na Europa, foram relatados mais de 70 mil óbitos. Paris foi uma das cidades onde o número de óbitos, particularmente entre idosos, aumentou desproporcionalmente aos registros históricos. As causas estão relacionadas à desidratação e piora da qualidade do ar que exacerbam manifestações de doenças pulmonares e cardíacas.
A alteração nos padrões de chuva devido à desertificação propiciam o surgimento de zonas de seca, e o excesso de chuva acarreta efeitos deletérios nas condições sanitárias de populações. Nas zonas de seca há aumento de doenças de pele, doenças infecciosas devido à contaminação da água potável, com epidemias de diarreia.
A Organização Mundial de Saúde estima um excesso de 500 mil mortes de crianças abaixo de 5 anos, anualmente, devido a doenças diarreicas. Nas zonas de chuva há proliferação de mosquitos transmissores de malária, dengue e outras viroses, promovendo epidemias anteriormente não existentes. A Índia vive esse problema de modo intenso. A perda de cobertura vegetal possibilita que viroses antes confinadas às matas atinjam núcleos urbanos. Exemplo é o retorno da febre amarela em grandes cidades brasileiras.
Moléculas artificiais, inexistentes na natureza, originadas de processos industriais, se acumulam na atmosfera com efeitos deletérios não só relacionados ao aquecimento, “efeito estufa”, mas à diminuição da barreira atmosférica à radiação ultravioleta, causa de câncer e de problemas imunológicos. O estudo da diminuição da camada de ozônio pelos gases CFC, clorofluorcarbono, levou a um bem-sucedido acordo mundial para sua substituição nos processos industriais. A duração de cada molécula de CFC na atmosfera é estimada em 45 anos. Uma outra molécula artificial, que não destrói a camada de ozônio, mas promove o efeito estufa, o CF4, permanece na atmosfera 50 mil anos até se degradar.
Neste ano foi descrita uma forma de insuficiência renal sem causa aparente que atinge trabalhadores rurais na América Central desde os anos 90. A doença passou a ser descrita na África, Ásia, Índia, América Latina e América do Norte e foi relacionada ao aumento da temperatura nas zonas rurais, associada ao uso de agrotóxicos e contaminação por metais pesados, que leva à perda irreversível da função renal. Foi possível reproduzir a doença em animais de experimentação. Essa é uma doença que surgiu na esteira das alterações dos ecossistemas e já é a segunda causa de morte na Nicarágua e em El Salvador.
Não sei se o termo Antropoceno será adotado pela Comissão Internacional de Estratigrafia, responsável pela nomenclatura das eras. Há um intenso debate. Novas doenças estão aparecendo e outras estão alterando seu perfil, por exemplo, a idade em que aparecem, seus sinais e sintomas e sua evolução clínica. Isto torna diagnóstico e tratamento mais difíceis.
Saber as condições ambientais em que cada um vive se transformou em necessidade. Não basta mais apenas saber onde a pessoa reside e com que trabalha, mas em que condições climáticas vive, qual a qualidade do ar que respira, de onde vem e qual é a composição dos alimentos que ingere e da água que bebe.
Nos cuidados com a saúde, o Antropoceno já chegou.
Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 12 de dezembro de 2019