No dia 29 de outubro, o jornal “New York Times” publicou reportagem sobre um episódio de fraude que envolveu um dos pesquisadores até então mais prestigiados da faculdade de medicina de Harvard. A reportagem informava que a universidade havia solicitado a retratação de 31 publicações do autor.

Piero Anversa, médico italiano naturalizado americano, foi um dos mais renomados pesquisadores no campo de utilização de células-tronco para regeneração cardíaca, trabalhava no New York Medical College e era conhecido por pesquisas sobre necrose de células cardíacas, publicadas nas décadas de 80 e 90.

Anversa se notabilizou quando publicou em 2001, na revista “Nature”, artigo que descrevia que célulastronco injetadas diretamente no coração de camundongos submetidos a infarto experimental eram capazes de produzir novo músculo cardíaco e reparar a área infartada.

Em 2002, Anversa publicou no “New England Journal of Medicine” artigo no qual descrevia que células tronco do próprio paciente, encontradas no sangue circulante, poderiam regenerar o músculo cardíaco danificado. Em 2003, um novo artigo publicado na “Cell” descrevia que o coração possui um “reservatório” de células-tronco e que, portanto, poderia regenerar-se autonomamente.

Esse conjunto de artigos, publicados nas três mais renomadas revistas científicas do mundo, revolucionaram o campo de estudo da regeneração cardíaca. Células cardíacas sempre foram consideradas incapazes de se multiplicar, diferentemente das células da pele, que se multiplicam após um corte, por exemplo.

Esses achados abriam imensas possibilidades para o tratamento de pessoas com infarto, a maior causa de óbito entre homens e mulheres no mundo, e para o tratamento de outras doenças cardíacas fatais.

Anversa recebeu convites de trabalho dos mais importantes institutos de pesquisa e universidades e, em 2007, aceitou o convite da Harvard Medical School para transferir seu laboratório para o Brigham and Women’s Hospital, daquela universidade.

Trabalhar nas mais renomadas universidades não é apenas uma questão de prestígio – significa o recebimento de milhões de dólares em verbas públicas e privadas para pesquisa, possibilidade de acordos com a indústria, geração de patentes, influência nas linhas de pesquisa que serão financiadas naquela e em outras universidades, influência nas linhas editoriais de revistas e, principalmente, o poder de criar esperanças em milhões de pessoas de que um novo tratamento será disponível em breve.

Anversa aparecia com frequência na lista dos possíveis candidatos ao Prêmio Nobel. Seu laboratório recebeu mais de US$ 50 milhões do governo americano em um período de dez anos, quantia muito além da usual. Como foi descoberta a fraude?

O processo da publicação de resultados de pesquisa científica se baseia no conceito de “peer review”, ou revisão pelos pares. O artigo, antes de ser publicado, é enviado a pesquisadores da mesma área de forma anônima – nem o revisor sabe quem é o autor, nem o autor sabe quem são os revisores. Estes podem solicitar novos dados, explicações adicionais e podem desaconselhar a publicação. Podem decorrer meses entre a submissão do trabalho e a consideração final dos revisores.

Obviamente todo o processo parte do pressuposto da honestidade intelectual dos autores, que, formalmente, declaram à revista que os resultados apresentados são a expressão verdadeira dos achados de pesquisa. Caso o trabalho seja publicado, inicia-se uma etapa crucial que é a reprodutibilidade dos achados por outros pesquisadores. Não basta dizer “eu fiz”, deve-se explicar “como fez” e possibilitar a reprodução, por outros pesquisadores, dos resultados apresentados. Assim avança a ciência.

As dúvidas a respeito dos resultados do dr. Anversa começaram cedo. Já no ano 2000, pesquisadores importantes passaram a anunciar que não conseguiam reproduzir os resultados, entre eles o dr. Charles Murry, do Centro de Biologia Cardiovascular e Medicina Regenerativa da Universidade de Washington. Em um evento científico, dr. Murry apresentou, lado a lado, fotografias de células cardíacas obtidas em seu laboratório e no laboratório de Anversa, mostrando que os resultados diferiam.

Em uma cena inusual em um evento médico, o dr. Nadal-Ginard, um assistente de Anversa, contrapondo-se à interpelação de Murry: “Amo Plácido Domingo e queria cantar como ele, mas não consigo. Você, Murry, não é Plácido Domingo” – argumento retórico, mas não científico.

As controvérsias foram se acumulando, até que Harvard e o Brigham and Women’s Hospital abriram uma sindicância interna em 2014. A investigação concluiu que se tratava de manipulação dos resultados das pesquisas. Em resumo, simples fraude. Em 2015, Anversa foi demitido de Harvard e o Brigham and Women’s Hospital aceitou pagar US$ 10 milhões em multa para o governo americano para encerrar processo sobre fraude com verbas federais.

Anversa processou Harvard e o Brigham and Women’s Hospital por “danos à sua imagem e carreira”. O processo judicial foi ganho pela universidade e pelo hospital em 2016. A solicitação de Harvard para que 31 publicações de Anversa fossem retiradas das revistas que as publicaram significa que os artigos não devem ser citados ou considerados para análise – em resumo, devem ser tratados como se nunca tivessem existido.

Se essa história parece aterradora, vejam essa outra. Uma pesquisa publicada em 2017 no “Journal of the American Medical Association” encontrou 61 centros oferecendo terapia com células-tronco, nos Estados Unidos, para “regeneração cardíaca”. O preço médio do “tratamento” era de US$ 7,6 mil.

Foram localizados 39 centros com websites e identificados 79 médicos. Destes, apenas 1 era cardiologista, 55 eram de alguma outra especialidade, 13 não foram identificados como especialistas e 10 se declaravam “médicos naturopáticos”, seja lá o que isso signifique. Cuidado com os anúncios que você vê, de “fake news” o mundo anda cheio.

 

Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 11 de novembro de 2018

//www.valor.com.br/cultura/5975033/fake-med

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