Leitor, uma “variável” é uma determinada característica que é mensurável e que nos interessa conhecer em um estudo científico. Em um estudo sobre nutrição, podemos investigar variáveis como o peso no início do estudo, o peso ao final do estudo, a quantidade de calorias ingeridas, a altura e a idade dos participantes. Quando se trata de variáveis expressas por números, podemos separá-las em dois tipos: as variáveis numéricas contínuas e as variáveis numéricas discretas.

As variáveis discretas são aquelas nas quais faz sentido determinar um número inteiro – por exemplo, o número de filhos numa família, o número de quartos em uma casa. As variáveis contínuas assumem valores em uma escala contínua para as quais valores fracionados fazem sentido, como peso ou idade de um indivíduo.

Algumas variáveis desafiam essa classificação, que é apenas didática. Outras vezes, nossa interpretação da realidade é que é a desafiada. Sobre seu tempo de vida, caro leitor, você julga mais apropriado classificá-lo como uma variável contínua ou discreta?

Acredito que a maioria das pessoas classificaria como uma variável contínua, mas, quando pensamos e falamos sobre nossa vida, usamos expressões típicas de variáveis discretas como, por exemplo, “aos 30 anos eu era assim” ou “quando chegar aos 70 anos pretendo estar bem”. A duração de nossa vida é melhor descrita como um continuum, hoje é a herança do ontem e a premissa do amanhã.

Nosso estado de saúde é função deste continuum, quanto mais jovens menos problemas de saúde temos. Nos deparamos com o surgimento de restrições e dificuldades físicas, mentais e psicológicas à medida que envelhecemos. A maioria delas não representam uma doença, mas apenas o efeito do passar do tempo sobre nosso organismo. Como estamos vivendo mais, estamos mais sujeitos a essas situações. Parece mais fácil pensar “ano passado não tinha isso”, do que aceitar que, muitos dos problemas que nos afligem, são a expressão de um processo contínuo.

São o resultado de uma relação de causa e efeito, entre o cuidado que temos com nossa saúde no decorrer da vida e o que vivenciaremos no porvir. Obviamente há situações de doença aguda, sobre as quais não temos controle, mas, neste texto, estamos considerando apenas o processo natural de envelhecimento. Numerosos estudos demonstram que uma vida saudável diminui a intensidade e mesmo o surgimento de diversas limitações.

Uma boa notícia é que esses cuidados com o próprio corpo são, em geral, simples mudanças nos hábitos de vida. Alimentação saudável, atividade física constante, manutenção do peso, abstenção do fumo e álcool, manter uma mente ativa, são apanágio de um bom processo de envelhecimento. Diagnosticar precocemente e tratar adequadamente a hipertensão, os níveis elevados de colesterol e o diabetes diminuem as complicações associadas a essas doenças com o avançar da idade.

Estudo do Instituto Nacional do Envelhecimento, órgão do governo federal dos EUA, publicado na última semana de março, demonstra que os problemas relacionados a idade demoram mais a se manifestar em diferentes países. Os países com melhores resultados foram Japão, Suíça, França e Cingapura. A população desses países começa a apresentar problemas típicos de quem tem 65 anos apenas aos 76 anos. A população de Papua-Nova Guiné, por outro lado, começa a apresentar os mesmos problemas aos 45 anos. Os habitantes dos EUA, país que mais gasta com saúde e que incorpora tecnologia com maior rapidez, começam a apresentar os problemas aos 68 anos, pouco ganho em relação ao dinheiro investido. A resposta não está na tecnologia.

Não é preciso tomar vitaminas, suplementos ou virar triatleta. Não há necessidade de se mapear o genoma de cada um. Mesmo os ditos exames de check-up têm uma utilidade limitada. Nenhum desses recursos está associado a uma maior ou melhor longevidade. Certamente esses resultados também refletem o saneamento e o acesso à agua potável, a vacinas e à educação em cada país. Nunca é tarde para começar a cuidar da própria saúde. Mesmo os que decidem adotar hábitos de vida saudáveis mais tardiamente se beneficiam.

É comum ouvir no consultório os seguintes comentários jocosos: “Dr., para que viver muito se eu não posso beber e comer o que eu quero?”, “Se eu tiver que emagrecer tudo isso, fico feio e com cara de velho” ou “Minha avó sempre fumou e viveu até os 99 anos”. Esses comentários traduzem, a meu ver, uma perda da ideia da conexão entre o ser e nosso corpo.

Nos servimos do corpo como se não nos dissesse respeito, como se fosse de responsabilidade de outro, como se não houvesse uma relação de causa e efeito entre o que planto e o que colho. Traduzem, também, uma fuga da realidade e a substituição das evidências pelo pensamento mágico de que “nada de errado acontecerá comigo”.

Na nossa sociedade medicalizada, substituímos o cuidar do corpo pela esperança na pílula mágica contra o Alzheimer, a senilidade, as dores articulares. Acreditamos mais na tomografia e ressonância para nos dar um diagnóstico inesperado ou na prótese de joelho e quadril que, desta vez sim, resolverá nossa dor, que na prevenção ativa.

Abrimos mão de assumir o controle do nosso futuro, até onde é possível o controle, amparando-nos no pensamento mágico da cura intermediada pela tecnologia. Aceito o argumento de que agimos assim porque essa ideia é vendida e propagandeada ininterruptamente. Há mais marketing que efetividade em grande parte das tecnologias vendidas como garantia de uma vida saudável. Excetuando-se o desenvolvimento das vacinas, nenhuma outra tecnologia biomédica foi o vetor de uma mudança dramática na longevidade e na qualidade de vida futura.

Muitos perguntam: “Ficarei melhor deste problema com o passar do tempo?”. A resposta é, geralmente, não. Por quê? Porque nos próximos anos você ficará cada vez mais velho, e não mais novo, com menores reservas de saúde, e não com maiores. Cuide-se, hoje, para o futuro. Esta é a única linha de argumentação possível. A finitude da vida é um fato. O surgimento de dificuldades, outro. Não se trata de um discurso pessimista, mas realista. Cada um tome sua própria decisão.

Voltando à questão das variáveis. Há um outro tipo de variáveis, as qualitativas, que não são expressas por valores numéricos, mas por categorias – por exemplo, ótimo, bom e ruim. Desejo que todos possamos avaliar a extensão da própria vida (variável contínua), em cada etapa (variável discreta) sempre como ótima (variável qualitativa).


Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 05 de abril de 2019

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