Aplicativo da Cetesb em 17 de julho

 

No dia 17 de julho, atendi meu velho amigo Senhor A, de 74 anos, portador de enfisema pulmonar de grau leve e que tem uma vida sem restrição de atividades físicas. Ele me procurou porque havia acabado de receber alta de duas internações de 12 dias, 6 deles em UTI, em pouco mais de três semanas. O Senhor A tinha dificuldade em respirar, dificuldade em oxigenar o sangue e cansaço intenso, quadro chamado de insuficiência respiratória – caso não se resolva, pode levar o paciente a ser entubado e submetido a ventilação com aparelhos.

A dúvida do Senhor A era o que deveria fazer. Deveria retornar a suas atividades habituais, ir ao mercado, ajudar a cuidar da neta e caminhar pelo bairro para fazer exercícios? A medicação que usava era semelhante a que tomava antes da internação, e seu aspecto geral parecia bom.

Naquela terça-feira, a temperatura em São Paulo no momento da consulta era 25°C, e o ar estava com baixa umidade. No site da Cetesb, a qualidade do ar era classificada de N4, muito ruim – numa escala que vai até N5 -, com índice de poluente de 155, numa escala na qual N5 é maior que 200.

Havia duas “dicas” no aplicativo. Aí vão, ipsis litteris. A primeira, “Como proteger sua saúde”: pessoas com doenças cardíacas ou pulmonares, idosos e crianças devem evitar esforço físico pesado ao ar livre; o restante da população deve reduzir o esforço físico pesado ao ar livre. A segunda, “Efeitos à saúde”: aumento dos sintomas em crianças e pessoas com doenças pulmonares e cardiovasculares. Aumento de sintomas respiratórios na população geral.

O conselho que dei para o Senhor A foi: “Você não deve respirar o ar de São Paulo nestas condições”. Quanto representa “pesado” em termos de esforço físico? Como se quantifica “aumento de sintomas respiratórios na população”? Afinal, como se controla o efeito desta atmosfera poluída no nosso organismo? A mesma poeira que cobre nossos carros invade nosso pulmão e causa uma séria de reações químicas e inflamatórias que se manifestam desde uma tosse seca até uma franca insuficiência respiratória.

Se você, leitor, já apresenta problema respiratório atualmente, é bem provável que piore, e se ainda não apresenta, saiba que estamos vivendo em condições que devem desencadear esses problemas posteriormente. Como o Sr. A, nem nós, podemos ficar sem respirar, estamos vivendo perigosamente este e outros invernos em São Paulo. Muito do que você pensa que é virose, sinusite, cansaço, alergia, estresse, insônia, dor de cabeça, irritação nos olhos, são sintomas da poluição.

Teremos todos problemas respiratórios no futuro? Quem sabe, mas com certeza seremos questionados pelos médicos: “Mas o senhor não fumou mesmo, nem teve asma quando criança ou história de câncer de pulmão na família?”. Exagero no vaticínio? Talvez não, é só lembrar as crianças anencéfalas de Cubatão na década de 80.

O jogo é o mesmo, os casos só desapareceram com a obrigatoriedade de filtros nas chaminés das fábricas e outras modificações no processo industrial destinadas a proteger, além do ar, o solo e a água, iniciadas no governo Franco Montoro. Segundo a Cetesb, hoje os volumes de emissão de material particulado no ar, o primeiro poluente a ser atacado, são 99% menores em relação aos níveis de 30 anos atrás.

No dia seguinte à consulta, foi publicado na prestigiosa revista “Nature Scientific Reports” um artigo sobre poluição do ar em São Paulo, de autoria de Joel Ferreira de Brito, com resultados obtidos em seu pós-doutorado no Instituto de Física da USP, e de Paulo Eduardo Artaxo Netto, professor titular do instituto, há mais de três décadas referência mundial em conferências sobre a física das mudanças climáticas globais.

O artigo “Disentangling Vehicular Emission Impact in Urban Air Pollution Using Etanol as a Tracer” (em tradução livre, Separando o Impacto das Emissões Veiculares na Poluição Urbana Usando Etanol como Marcador) possibilitou que se mensurasse de onde se originam os principais componentes da poluição do ar em São Paulo.

Os resultados demonstraram que, embora caminhões e ônibus movidos a diesel representem apenas 5% da frota em circulação, eles respondem por desproporcional quantidade de poluentes liberados na atmosfera, 30% do monóxido de carbono, entre 40% e 45% do benzeno e do tolueno e 50% do “black carbon”, o restante ficando com carros de passeio e motocicletas que utilizam etanol. Esses achados estão em linha com a queda de 50% na poluição do ar observada na cidade durante a greve dos caminhoneiros.

A professora Luciana Rizzo, da Unifesp, que também integrou a equipe da pesquisa, ressalta que um conjunto de poluentes, de reconhecido impacto na saúde humana, não são regulamentados. É o caso de partículas de escalas nanométricas, ozônio, acetaldeído, benzeno, tolueno e o “black carbon”, composto emitido por combustão e responsável pela fumaça preta que pode ser observada em escapamentos.

Esses resultados foram obtidos na primavera, período mais chuvoso e de pouca poluição. Resultados mensurados no inverno, com pouca chuva e condições piores de dispersão, levam à classificação N4, observada em 17 de julho. O professor Artaxo, comentando os resultados, ressalta que redução de uso de veículos em São Paulo, aliada à expansão das linhas de metrô, é o primeiro e mais eficaz modo de minimizar a poluição. Ótimo custo/benefício pode também ser obtido diminuindo emissões de poluentes pelos ônibus.

Na Europa são utilizados filtros que eliminam 95% das emissões dos veículos a diesel, inclusive ônibus – essas novas tecnologias, que são baratas, podem ser adotadas a curto prazo. Na contramão da história, o novo edital de licitação dos ônibus de São Paulo estabeleceu que empresas terão até 2028 para reduzir emissões de monóxido de carbono e dióxido de nitrogênio à metade e até 2038 para cortá-las a zero. Nenhum plano para outros poluentes biologicamente ativos.

Sr. A, você e eu, caro leitor, temos mais 20 anos de “esgotosfera” para respirar porque Petrobras, fabricantes de motores e empresas de viação e transportadoras não querem mexer com o Ebitda planejado, e as autoridades públicas, pelo visto, endossam essa escolha.

Cubatão iniciou a implantação de seu plano de recuperação ambiental em 1983. Nove anos depois, foi reconhecida pela ONU como Símbolo de Recuperação Ambiental durante a Eco 92. A volta do guará vermelho, pássaro típico da região e desaparecido há décadas, foi o marco do efetivo controle da poluição.

Hoje com melhor tecnologia e conhecimento, só a ausência de vontade política explica um horizonte de 20 anos para limpar o ar da cidade. Com frota de mais
de 8 milhões de veículos, não temos todo esse tempo para esperar. Na dúvida, respire pouco.

 

Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 10 de agosto de 2018

//www.valor.com.br/cultura/5724619/o-ar-que-somos-obrigados-respirar

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