Caro leitor, como está seu alfabetismo em saúde? Não tem certeza? Mestre Houaiss oferece como sinônimos “letramento” e “alfabetização”. Melhorou? Alfabetismo em saúde é a capacidade de buscar, receber, ler, compreender, arguir e tomar decisões corretas sobre a própria saúde. É a tradução literal de “health literacy”, termo que vem ganhando destaque na literatura médica.

Nos últimos dez anos foram publicados mais de 13,3 mil artigos científicos sobre o assunto; nos dez anos anteriores, 915 artigos. Aumento de quase 15 vezes.

Se você não consegue ler, entender e tirar suas dúvidas sobre orientações que recebeu do médico, instruções para realização de exame, a bula da medicação que utiliza, a receita que recebeu (data venia para a letra do médico) ou cláusulas do seguro de saúde e formulários que assinou na internação hospitalar, você é iletrado em saúde ou, como se diz nas pesquisas sobre educação formal, analfabeto funcional. Por que este tema se tornou tão relevante?

Estudo realizado pelo Departamento de Educação dos EUA, órgão federal com funções semelhantes ao nosso Ministério da Educação, considerou apenas 12% dos adultos como proficientes na compreensão de textos e na capacidade de expressão oral de assuntos relacionados à própria saúde; 53% com capacidade intermediária; 22% atingiram nível básico e 14% apresentaram compreensão aquém do mínimo. Sem entrar em detalhes metodológicos, os resultados são muito ruins.

Trata-se, afinal, de saber o que fazer com seu bem mais precioso, sua própria saúde. Imagine, como exercício de comparação, que apenas 12% dos pilotos de avião saibam, exatamente, o que estão fazendo.

Os principais fatores relacionados aos piores resultados foram: outra língua que não o inglês como língua materna; idade acima de 65 anos; baixo nível educacional e baixo nível de renda. Nesse contexto, hispânicos e negros se saíram pior.

Há duas consequências, bastante distintas, de um baixo nível de alfabetismo em saúde. Uma diz respeito ao cuidar de si mesmo e outra à capacidade de se fazer uso da tecnologia, cada vez mais onipresente e abrangente, na indústria da saúde.

No campo do cuidar, pacientes com pouca compreensão das informações recebidas tendem a usar de forma errônea as medicações prescritas. Interpretam e reportam inadequadamente sinais e sintomas de suas doenças, o que leva à pior evolução do estado de saúde, demora na procura de serviços médicos, maior incidência de hospitalização e maior mortalidade.

Num episódio da série de TV “House”, há um bom exemplo desse fenômeno (bit.ly/2MAGVCo). Séries de ficção sobre medicina e filmes com cenas médicas, aliás, são um perigo para pessoas com baixo grau de alfabetismo de saúde. Curas miraculosas com uma única intervenção ou novos medicamentos, pacientes que se recuperam de coma após anos, tecnologias que permitem cirurgias extraordinárias, pacientes que após uma parada cardíaca levantam-se e continuam suas atividades como se nada houvesse acontecido.

São, todas, liberdades ficcionais tomadas ao pé da letra, como fatos verídicos. É como se você perguntasse a alguém: “Chegou rápido. Veio como?”, e obtivesse como resposta: “Me teletransportei…”.

Não sorria, ainda, amigo leitor. No desespero com o sofrimento de uma pessoa amada, confundimos fatos com ficção e aceitamos, primeiro, o que nos conforta mais. No campo de utilização de tecnologias, o iletrado em saúde encontra sérias dificuldades na interação com máquinas ou centrais de autoatendimento, na correta utilização de aparelhos domiciliares para aferição de pressão ou glicose sanguínea, no uso correto de próteses.

Ele tem dificuldades em se comunicar com operadores de “call centers”, preencher formulários com informações de saúde, entender cláusulas do seguro médico, entender o que está autorizando no momento em que assina documentos de internação hospitalar ou pertinentes à realização de exames e procedimentos hospitalares ou ambulatoriais.

Essas dificuldades geram transtornos administrativos e financeiros para essas pessoas e causam impacto negativo no cuidado com a saúde. Após um primeiro transtorno com esses equipamentos ou sistemas, frequentemente os pacientes temem fazer uso deles novamente.

Não é rara a tendência à judicialização após experiências frustrantes, que parte de pacientes, familiares, operadoras de planos de saúde, seguradoras e prestadores de serviço e nada acrescenta à resolução do problema. A abrangência desse fenômeno, com um número cada vez maior de ocorrências, levou ao grande aumento de literatura médica descrito anteriormente.

Esforços para mitigar esse problema têm sido realizados por diversas instituições que representam usuários, prestadores de serviço e governos. Em 2010, o governo americano lançou uma iniciativa para melhorar o alfabetismo em saúde, que aborda ações que os diversos “players” do mercado de saúde devem implementar para melhorar o acesso e a correta utilização dos recursos.

A iniciativa propõe estimular que o paciente ou acompanhante tome nota das informações recebidas, que orientações sejam fornecidas sem a utilização de jargão técnico, que exista um número de telefone para se tirar dúvidas, que as instruções recebidas sejam repetidas pelo paciente na frente de quem as fornece, que os pacientes sejam acompanhados nas consultas por pessoas com maior entendimento.

Apesar de parecerem óbvias, essas sugestões podem diminuir os mal-entendidos. Há poucos estudos sobre o tema no Brasil e raras iniciativas para quantificar e abordar esse problema entre nós. Não há nenhuma diretriz do SUS, e desconheço iniciativas importantes no sistema de saúde complementar. Acredito, por experiência, que o nível educacional e econômico dos indivíduos e as dificuldades advindas da idade avançada sejam os principais fatores que influenciam o alfabetismo de saúde no país.

Das orientações acima citadas, penso que ir ao médico acompanhado seja a mais importante. O acompanhante ajuda a implementação correta das instruções recebidas e deve checar, no dia a dia, se o tratamento está sendo realizado adequadamente. Esqueça o teletransporte, ainda estamos na era do carro de boi.

Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 01 de fevereiro de 2019

//www.valor.com.br/cultura/6099691/o-que-e-o-analfabetismo-em-saude

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