Acabaram-se as festas de fim de ano. Para quem ultrapassou o limite do próprio corpo, ficaram como lembranças dor de cabeça, dor no estômago, falta de sono, excesso de sono, ansiedade, depressão, queimaduras de sol, dor muscular, manchas na pele, aumento de peso, boca seca, “alteração na pressão”, “alteração no diabetes”, “dor no fígado”, “vômito com bílis”, “cabeça aérea”, “coração disparado” ou qualquer outro sinal ou sintoma que leva muita gente a um pronto socorro ou consultório médico.

Mas, antes de procurar auxílio médico, você lembra de uma outra vez em que teve a mesma coisa e melhorou com um determinado medicamento; ou você comenta com um familiar ou amigo que diz sempre melhorar com aquela medicação quando tem algo parecido. Você cede à tentação e, pronto, se torna mais uma vítima da automedicação. Fácil assim.

Automedicação é um esporte nacional e estamos bem no cenário mundial em suas várias modalidades: troca de receitas, consulta de balcão de farmácia, anúncios no rádio, na televisão, programas patrocinados que contam a maravilha de cada tratamento, links na internet, mensagens no celular.

Artistas e demais formadores de opinião atestam que não vivem sem esses medicamentos fantásticos, quase mágicos, que melhoram sintomas facilmente, para serem alegres, felizes e alcançar o sucesso. Tudo ao seu alcance, também.

Há incentivo oficial e preocupação governamental para que tal esporte alcance a grande massa. Venda livre de medicamentos, sem necessidade de receita, é a regra geral, exceção para os antibióticos e medicamentos psicotrópicos. Nos templos de consumo em que se transformaram as farmácias há tal pletora de ofertas que você chega a pensar como viveu sem tudo aquilo até agora.

Supermercados e lojinhas da esquina se esforçam para que você tenha acesso aos produtos através de diferentes canais de venda. Entregam na sua casa, se você preferir, sem custo extra. Temos até um simpático slogan que alerta: “Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”. Conselheiro Acácio se rói no túmulo: “Como não pensei nisso antes…”. É engraçado ouvir o slogan em velocidade acelerada, após cada anúncio, nos meios de comunicação de massa.

Que país do futebol, que nada! Neste esporte nadamos de braçada! Até nos países de pensamento político mais liberal há maior controle sobre propaganda e comercialização de medicamentos do que aqui na terra de Macunaíma, nosso herói sem nenhum caráter.

Está na dúvida de por que não deve se automedicar? Paracelso, misto de médico, químico e alquimista do século XVI, criou o seguinte aforismo, válido até hoje: “Dosis sola facit venenum”, só a dose faz o veneno ou, mais diretamente, a diferença entre remédio e veneno está na dose. Anos de consumo de sintomáticos, aparentemente inofensivos, podem levar a diversas doenças. O exemplo mais gritante é o uso excessivo de anti-inflamatórios e o desenvolvimento ou a piora de insuficiência renal que leva à diálise ou transplante. Os anti-inflamatórios melhoram a dor e são ingeridos sem nenhuma preocupação, para qualquer dor. Estão presentes nos combos de medicamento para resfriado, onde muitas vezes se escondem 3 ou 4 medicamentos diferentes em doses variadas.

Automedicar-se atrasa o diagnóstico correto, dificulta a interpretação dos sintomas e mascara a apresentação da doença. Devido ao fato de que doenças diferentes se apresentam com o mesmo sintoma, a tontura que se associou ao consumo de álcool pode ser uma doença vascular cerebral. O cansaço imputado à noite maldormida pode ser um problema cardíaco. O aumento ou diminuição de peso pode ser devido a uma doença endocrinológica ou a uma neoplasia. Automedicação não leva em conta os outros medicamentos que o indivíduo faz uso, a interação entre eles, o ajuste da dose ou mesmo a contraindicação da administração concomitante.

Crianças e idosos são um grupo de risco ainda maior para os efeitos deletérios da automedicação. Crianças porque obedecem aos pais, e estes não sabem que o metabolismo delas é diferente do adulto e, portanto, os medicamentos demandam ajustes. Idosos porque são frágeis, já fazem uso de outras medicações e apresentam dificuldade em lidar com medicações devido à presença de doenças crônicas, o que torna a resposta a um novo medicamento menos previsível e seus efeitos colaterais mais perigosos.

Uma outra variação de automedicação é a mudança da dose do medicamento prescrito. Muitas vezes, quando indagamos ao paciente por que não está usando a dose prescrita, a primeira reação é um silêncio constrangedor, seguida de alguma explicação, envergonhada: leu que podia fazer mal, ou alguém disse que era melhor alterar, para mais ou para menos, porque tal dose fez bem ou mal. Perde-se totalmente o controle do tratamento.

O indivíduo pensa que a pressão ou o diabetes está controlado com a nova dose e aumenta o risco de complicações no curto, médio e longo prazo. Nosso corpo nos pertence, é nosso ser, achamos que entendemos dele melhor que qualquer outra pessoa. Sem entrar nos méritos filosóficos dessas opiniões, de um fato ninguém deve duvidar, de farmacologia ninguém que não estudou o assunto entende alguma coisa. Mesmo quem estudou vive, para cada paciente, a dificuldade que Paracelso exprimiu: como achar o medicamento e a dose adequada para cada um?

Caso você agrave seu quadro de saúde medicando-se por conta própria, você sempre pode ligar para o SAC do fabricante, que lhe dará diversas informações técnicas e, candidamente, lhe lembrará que você usou o medicamento por conta própria. Pode ligar para as agências de publicidade, se você conseguir o número, e elas irão dizer que não sabem do que você está falando. Pode ligar para o amigo que o aconselhou e rediscutir o caso. Pode buscar auxílio médico, pois os sintomas persistiram, mas isso você já sabia pela publicidade, só não sabia é que podia acontecer com você.

 

Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 04 de janeiro de 2019

//www.valor.com.br/cultura/6047875/os-efeitos-colaterais-da-automedicacao

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