
Chegamos a dezembro, tempo da avaliação do ano que passou e do planejamento para o próximo ano, tempo de fazer as tradicionais promessas para o ano-novo. Na lista das “dez mais” estarão perder peso, fazer atividade física, parar de fumar, parar de beber. Enfim, cuidar melhor da saúde.
Aparentemente um cidadão não estará preocupado com essa lista, visto que, entra ano e sai ano, permanece jovial e despreocupado. Quem é esse? Papai Noel.
Teria o bom velhinho razões para mudar seus hábitos de vida, cuidar melhor da saúde, controlar os chamados “fatores de risco cardiovascular”?
Sem dúvida. Apesar de não aparentar, Papai Noel deve ter mais de 70 anos e, a partir dos 40 anos, as principais causas de morte são as doenças ateroscleróticas cardíaca e o acidente vascular cerebral, ou seja, infarto e derrame. Mamãe Noel também deveria estar preocupada, o mesmo se aplica às mulheres.
Os fatores de risco são situações que preveem a possibilidade de desenvolvimento da doença aterosclerótica. Mais fatores, mais risco. Alguns dos fatores de risco são modificáveis, outros não.
História familiar, sexo e idade são os principais fatores considerados não modificáveis. Todos devem conhecer o histórico das doenças que afetam a família. Informações clínicas sobre a saúde de pais, avós, irmãos, tios e primos são fundamentais para a avaliação do risco.
Homens são mais afetados pelas doenças ateroscleróticas, embora a mortalidade das mulheres seja maior. Esse fato é, muitas vezes, desconhecido pelas mulheres e pode trazer uma falsa sensação de segurança.
Idade só aumenta ano a ano. Apesar da obviedade dessa informação, muitas vezes nos esquecemos de que a possibilidade de manifestação da doença aterosclerótica aumenta com a idade. A ativa vovó de 70 anos tem, efetivamente, 70 anos. Seu risco é maior hoje do que quando ela tinha 60 anos, e é menor do que ela terá quando atingir os 80.
Outros fatores de risco que podemos modificar são os hábitos de saúde. Sedentarismo, obesidade, tabagismo e uso de álcool são os mais importantes. Sedentarismo está na base da prevenção de doenças ateroscleróticas e, também, na prevenção de certos tipos de câncer, depressão e ansiedade, além de promover uma velhice com maior autonomia física e mental. A recomendação mínima é 150 minutos semanais de atividades aeróbicas moderadas (andar rápido, dançar, pedalar ou nadar calmamente) ou 75 minutos semanais dessas mesmas atividades em um ritmo mais intenso.
Obesidade é definida quando seu índice de massa corpórea (o resultado da divisão de seu peso pela medida da sua altura ao quadrado) for maior ou igual a 30. O valor máximo aceitável é 24, o intervalo entre 24 até 30 é chamado de sobrepeso. Por exemplo: 80kg dividido por 2,89m (1,7m ao quadrado) resulta 27,6 – faixa do sobrepeso. Hora de escutar sua amiga balança (sim, ela é sua amiga), parar o autoengano e a autocomiseração e cuidar da dieta.
Tabagismo e uso de álcool fazem mal. A frase está no modo indicativo afirmativo direto, isso quer dizer que exprime precisão e certeza de quem fala. Se fuma, para. Se bebe, para. Se não bebe ou não fuma, não comece. Os principais fatores de risco que envolvem tratamento específico são a pressão arterial, o diabetes e os níveis de colesterol e triglicerídeos.
Hipertensão arterial está presente em cerca de 30% a 45% dos adultos com mais de 18 anos e sua prevalência aumenta com a idade. É um dos fatores de risco com maior potencial deletério. O valor máximo de pressão arterial considerado normal é 130×80 mmHg, valores acima desse devem levar a uma avaliação médica.
Diabetes é a maior causa de cegueira, falência renal, infarto, acidente vascular cerebral e amputações no mundo. Estima-se que 415 milhões de pessoas, 8% da população mundial, tenham diabetes. Diabetes é definida como um nível de glicose no sangue, após jejum de 8 horas, maior que 126 mg/dL. Valores maiores que 100 mg/dL devem levar a uma avaliação médica.
Os níveis de colesterol e triglicerídeos estão diretamente ligados ao desenvolvimento da doença aterosclerótica. Valores aceitáveis são triglicerídeos menores que 150 mg/dL; LDL colesterol menor que 130 mg/dL e HDL maior que 40 mg/dL. O estresse é outro fator de risco conhecido. Aprender a lidar com os desafios do dia a dia não é fácil, mas é necessário.
Os fatores descritos não esgotam a pesquisa de outros fatores mais específicos em pacientes selecionados, mas esse mínimo deve ser conhecido por todos os indivíduos ainda sem evidência de doença. A adequada interpretação do conjunto dos fatores de risco permite ao médico estimar o risco de cada um desenvolver doença e propor intervenções apropriadas.
E nosso amigo Papai Noel? Nada sabemos de sua história familiar. Podemos inferir que é sedentário, pois trabalha sentado. Está nitidamente fora do peso e é visto tomando refrigerante com frequência, o que faz pensar que deva ter glicose ou triglicerídeos elevados.
Sou capaz de apostar que tem um colesterol alto pelo “conjunto da obra”. Seu trabalho parece estressante, pois lida com prazos exíguos para a entrega de muitas mercadorias em diferentes partes do globo. Arriscaria dizer que tem um risco alto para doença cardiovascular, tomara que esteja com um bom acompanhamento médico e se tratando adequadamente.
No jargão do mercado se diz que uns tomam mais riscos que outros. A gestão desses riscos depende de você. Tome menos riscos para a sua saúde no ano que vem. Feliz Natal e um ótimo 2019!
Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 07 de dezembro de 2018