Quando não sabemos quais são as doenças mais frequentes para nossa faixa etária e nosso sexo, ficam mais difíceis a prevenção, o diagnóstico e o tratamento. Durante décadas as doenças cardiovasculares foram consideradas típicas dos homens. Esse viés contaminou o ensino médico, a percepção que as mulheres têm dos seus problemas de saúde e, pior que tudo, prejudicou o diagnóstico e o tratamento das mulheres que procuram um pronto-socorro ou consultório médico com sinais e sintomas que não são interpretados corretamente.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, o infarto agudo do miocárdio é a maior causa de óbitos em mulheres a partir da quinta década de vida na Europa e nas Américas. Quanto mais idosas as mulheres, maior o número de mortes causadas por doenças cardiovasculares e suas complicações e menor o número de mortes causadas pelos diversos tipos de câncer Na faixa etária dos 30 aos 49 anos de idade, nas mesmas regiões, o infarto é a segunda maior causa, perdendo por pouco do câncer de mama.

Quanto dos leitores e das leitoras tinham ideia da magnitude desses números? Eles são o fundamento de uma grave tendência – a mortalidade das mulheres que sofrem infarto agudo do miocárdio é maior que a dos homens, e essa maior mortalidade se mantém nos anos que se seguem após o infarto.

As causas que levam a esse fenômeno não são completamente compreendidas. Costuma-se separar as razões em dois campos, um deles relacionado a fatores biológicos próprios do sexo feminino, como variações hormonais, metabolismo e respostas orgânicas diferentes das do sexo masculino. O outro é relacionado aos papéis sociais cada vez mais demandantes e estressantes assumidos pelas mulheres nas últimas décadas.

Quaisquer que sejam as causas, o fato é que os sintomas clássicos de dor de origem cardíaca ou as manifestações do infarto não se apresentam nas mulheres do mesmo modo que nos homens, e aí se encontra a armadilha que contribui para a maior mortalidade feminina. Por não estarem atentas para a realidade do infarto, as pacientes interpretam esses sinais e sintomas iniciais como se fossem de outra causa, por exemplo, de origem muscular, emocional, gastrointestinal, só procurando auxílio médico quando julgam que algo muito diferente está ocorrendo.

Quando chegam ao pronto-socorro, as queixas também são interpretadas erroneamente, como se fossem emocionais ou de outras causas. São infindáveis os relatos de pacientes que não passam por um simples eletrocardiograma ao chegarem aos setores de emergência dos hospitais ou para as quais os exames específicos para diagnóstico não são solicitados porque o “quadro não era típico”. A consequência, nos casos de infarto, é que se perde muito tempo antes que o tratamento efetivo seja instituído. Isso se a paciente não for liberada sem o diagnóstico correto. Essa é uma tragédia que ocorre todos os dias, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Há artigos científicos americanos, europeus, asiáticos e brasileiros que relatam que mulheres recebem menos medicação para tratar o infarto e fazem menos cateterismos e angioplastias que pacientes do sexo masculino. Quando recebem as medicações e se submetem às intervenções, isso ocorre com um atraso maior que o dos homens, o que diminui a eficácia do tratamento e aumenta a mortalidade e as sequelas remanescentes.

Como se não bastasse, mulheres são geralmente sub-representadas nos grandes estudos que definiram qual o melhor tratamento para o infarto. Na população geral, mulheres são 50% do total. Mas, em muitos estudos, elas são 20 a 30% dos pacientes recrutados, o que significa que os resultados do estudo são fortemente influenciados pelos efeitos apresentados nos homens, não necessariamente se aplicando às mulheres na mesma intensidade e no mesmo risco.

Como melhorar esse quadro? O primeiro passo é voltar ao título deste texto. Tomar conhecimento de que o que mata mulheres são doenças cardiovasculares, em particular o infarto e o acidente vascular cerebral. O que as mulheres devem fazer? Procurar auxílio médico sempre que sentir desconforto torácico, respiratório ou sintomas que podem ser confundidos com os de ansiedade como sudorese, falta de ar, sensação de perigo iminente, dores que se assemelham a dores musculares, formigamentos.

As sociedades médicas que congregam os profissionais que trabalham com urgência e emergência têm realizado esforços para chamar atenção para esse problema em cursos e congressos. Prevenir as doenças cardíacas funciona para ambos os sexos, ter uma dieta saudável, manter o peso adequado, evitar bebidas alcoólicas, parar de fumar, fazer atividade física rotineiramente, cuidar da ansiedade e depressão, tratar a hipertensão, o diabetes, os níveis elevados de colesterol. Conhecer os próprios riscos é a melhor maneira de diminuí-los.

 

Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 13 de abril de 2018

//www.valor.com.br/cultura/5449311/que-doencas-matam-mulheres

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