
É lugar-comum falar que a sociedade contemporânea é estressante, e parece que todos entendemos o que esse anglicismo traduz psicológica e fisicamente. Estresse é um termo da física que, aplicado aos fenômenos biológicos, significa tensão que sobrecarrega, além de um limite razoável, nossa mente e nosso corpo. Deriva do latim “stringere”, que tem o significado de “apertar forte”.
Para o organismo do homem enfrentar pressões e ameaças à sua sobrevivência, a reação desenvolvida, evolutivamente, é chamada de reação de fuga ou luta. Caracteriza-se por uma série de modificações hormonais agudas, em que tomam parte dois hormônios principalmente, a adrenalina e o cortisol. A liberação maciça de adrenalina aumenta a frequência cardíaca, a força de contração do coração, dilata a pupila, desvia o sangue para músculos e cérebro – daí a palidez da pele quando estamos sob a ação da adrenalina – e diminui a acuidade auditiva – daí as pessoas argumentarem que não escutaram o que se falou a elas nas situações de nervosismo extremo.
A liberação de cortisol aumenta a pressão arterial, aumenta a produção e a liberação de glicose na corrente sanguínea para ser utilizada como fonte de energia extra para os músculos. A ação conjunta desses dois hormônios ativa o sistema de coagulação, eleva o número de plaquetas, células responsáveis pelo início do processo de coagulação, e das proteínas responsáveis pela formação dos coágulos sanguíneos, para estancar rapidamente a perda sanguínea de um ferimento.
Esse conjunto de reações aumenta a força muscular e a atenção e diminui a perda sanguínea em caso de ferimento. Enfim, prepara o organismo para fugir o mais rapidamente possível da ameaça à sua existência ou lutar para se defender talvez até a morte do oponente ou a sua própria. Podemos ver essa reação dos caçadores coletores africanos enfrentando um predador na savana aos gladiadores romanos ou em qualquer combate singular em que a condição dada é matar ou morrer, fora a possibilidade da fuga, em qualquer época ou circunstância histórica.
Essa reação não foi desenvolvida para ser perene na vida do homem. As situações em que esses mecanismos são ativados são as extremas, não se encontra um predador ou um inimigo mortal todos os dias. Passado o perigo, os níveis de adrenalina, cortisol e demais substâncias envolvidas hiperativadas retornam ao seu estado natural. A ansiedade crônica do mundo contemporâneo e, aqui, trata-se essa premissa como um fato, independentemente de suas causas, promove a liberação dos mesmos hormônios e substâncias que caracterizam a reação de fuga ou luta. A diferença é que não há mais uma volta a um estado natural, há uma hiperprodução constante, diuturna, com consequências danosas ao organismo.
A associação direta entre o estresse crônico, ou o modo com que lidamos com ele, e o surgimento de doenças cardiovasculares em pessoas sem doença cardiovascular prévia é ainda tema de debates. Isso porque há a presença de elementos confundidores, termo estatístico que descreve elementos que dificultam a análise dos dados de uma amostragem, na análise dos estudos publicados. Por exemplo, pessoas sob estresse crônico podem fumar para tentar controlar a ansiedade, geralmente sentem-se sem energia para a prática de atividade física, podem comer excessivamente ou preferir alimentos mais ricos em gordura, sal ou colesterol, podem ingerir bebidas alcoólicas com maior frequência ou usar drogas ilícitas.
Em geral pessoas com estresse crônico, relacionados ao ambiente de trabalho ou problemas familiares, apresentam um risco de desenvolverem doença coronária ou acidente vascular cerebral de 1,1 a 1,6 vezes a mais que uma população sem essa condição. Apesar de maiores, esses riscos são menores que o apresentado pela presença de hipertensão, tabagismo,obesidade ou colesterol elevado. Essa associação de doença cardíaca e estresse também foi observada para o desenvolvimento de diabetes e para problemas mais graves de saúde mental. Não foi observada para desenvolvimento de doenças pulmonares, gastrointestinais, respiratórias ou câncer.
Exceção trágica é a correlação de traumas na infância como abuso sexual, exposição a violência doméstica, utilização de drogas na família, abuso verbal, psicológico ou emocional com desenvolvimento de doenças na idade adulta, entre elas a doença cardiovascular. A situação muda quando se observam as populações com alto risco de doença cardiovascular ou com doença cardiovascular já existente. Nessas populaçõesa presença constante do excesso de adrenalina, cortisol e outras substâncias relacionadas ao estresse crônico leva à maior incidência de doença cardiovascular e um episódio agudo de raiva, ansiedade ou luto serve de gatilho para eventos que incluem infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e óbito.
Essa associação tem sido descrita em zonas de guerra. Por exemplo, houve maior incidência de infarto e morte súbita em Tel Aviv, na Guerra do Golfo, durante o bombardeio de Israel pelos mísseis iraquianos. Apesar de a cidade não se encontrar na área bombardeada, era possível ouvir os ruídos das explosões, o que desencadeava episódios de estresse agudo.
Nesta época de Copa, o risco de sofrer um infarto que pode ser fatal já é bem descrito na literatura médica. Na Copa de 1998, 16 anos após Guerra das Malvinas, no dia do jogo entre Inglaterra e Argentina que foi decidido nos pênaltis, com vitória da Argentina e eliminação da Inglaterra, e nos dois dias seguintes, houve aumento de 25% no número de internações devido a infarto agudo do miocárdio nos hospitais ingleses.
Esse aumento do número de internações não foi observado com nenhuma outra situação clínica ou em nenhum outro jogo da Inglaterra. Mais recentemente, na Copa da Alemanha em 2006, nos dias de jogos da Alemanha, em estudo realizado em hospitais da Bavária, dobrou o número de admissões por infarto e dor torácica de origem cardíaca e triplicou o número de admissões por arritmias cardíacas.
O resumo, caro leitor, é que o estresse, nas suas várias formas de apresentação, seja como ansiedade, seja depressão, não é uma fraqueza da mente ou do espírito que um dia passará sozinho. É uma doença com graves repercussões orgânicas mentais que deve ser tratada adequada e rapidamente. Torçamos pelo Brasil: sem sustos, com alegria.
Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 22 de junho de 2018