Onde está sua carteira de vacinação, amigo leitor? Sim, a sua, não a dos seus filhos ou netos. Não faz ideia? Nem sabia que tinha uma? Se você nem sabe o que é isso, então a situação é grave. Carteira de vacinação é o documento com o registro das vacinas que você já tomou e o lembra daquelas que você ainda precisa tomar. Parece uma preocupação que diz respeito a bebês e crianças, mas é importante para todas as idades.
Há poucos dias um jogador da seleção brasileira de futebol foi afastado do grupo devido a um diagnóstico de caxumba, doença de etiologia viral altamente contagiosa. Raramente é doença mortal, mas pode levar a sequelas como surdez e esterilidade. Ela é prevenida pela vacina MMR, que imuniza a pessoa também contra sarampo e rubéola. A primeira dose é recomendada entre os 9 e 15 meses de vida e a segunda dose deve ser aplicada até os 6 anos. A eficácia de proteção contra a caxumba é estimada em 80%.
Antes da introdução da vacina MMR nos EUA, em 1967, caxumba era considerada uma das doenças comuns da infância que todas as crianças teriam. Atualmente houve um decréscimo de 99% no número de casos naquele país. Caxumba pode surgir, entretanto, mesmo em pessoas vacinadas, em grupos fechados com alto grau de contato, como instituições de ensino, clubes esportivos, alojamentos conjuntos e comunidades religiosas. Resta saber: o jogador era vacinado? Temos que achar a carteira de vacinação e verificar.
É frequente ouvir no consultório “A segunda dose eu não tomei”, “O reforço eu não fiz”. As consequências de não se tomar todas as vacinas nas doses adequadas afetam o indivíduo e a sociedade. Para o indivíduo, a consequência óbvia é que estará exposto às doenças que se podem prevenir e que, muitas vezes, apresentam alto risco como, por exemplo, o sarampo. Este ainda afeta cerca de 20 milhões de pessoas no mundo, particularmente na África e Ásia. Em 1980 foram registradas 2,6 milhões de mortes devidas ao sarampo. Com esforço das nações e orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) esse número foi reduzido para 73 mil óbitos em 2014.
A consequência para a sociedade é a diminuição do cordão de isolamento proporcionado pela vacinação. Quanto mais pessoas vacinadas, mais difícil para o agente infeccioso se propagar. Quanto menos pessoas vacinadas, maior o número de brechas para a propagação da doença. Em linguagem futebolística, a defesa fica “vazada”, “cheia de buracos”. As consequências dessas brechas são dramáticas. Vejamos.
O jogador não desenvolveu a caxumba do nada. Ele foi contaminado por outra pessoa. O período de incubação do vírus, tempo até o aparecimento dos sintomas, é de 12 a 25 dias. O período de transmissão da doença varia entre 6 e 7 dias antes das manifestações clínicas, ou seja, o portador pode transmitir o vírus uma semana antes de apresentar os primeiros sintomas e até 5 dias após o aparecimento dos sintomas.
Caso não estivesse com a vacinação adequada, o jogador foi o elo fraco na propagação do surto. Quem o contaminou? Um outro colega de concentração? Um torcedor que ele abraçou? Um funcionário da concentração? Um passageiro do mesmo avião? Um jogador de um outro time? O filho de um colega? Como se pode ver, as possibilidades são múltiplas e não excludentes, daí a dificuldade.
O outro problema, então, é para quem o jogador transmitiu o vírus? Quem o jogador pode ter contaminado sem saber? Um outro colega de concentração? Um torcedor que ele abraçou? Um funcionário da concentração? Um passageiro do mesmo avião? Um jogador de um outro time? O filho de um colega? Novamente é quase impossível discriminar quem foi contaminado e por quem, pelo jogador ou por uma outra pessoa contaminada por ele.
Existem modelos matemáticos que simulam a rapidez com que determinado agente infeccioso se propaga. Levando-se em conta a atual mobilidade das pessoas, principalmente com o transporte aéreo, os cenários preditos são assustadores. Doenças que surgem na Austrália podem se propagar em questão de poucos dias para as Américas ou Europa e vice-versa. Não existem mais refúgios ou santuários onde se possa esconder. As simulações de propagação de doenças em rapidez e abrangência são, muitas vezes, tão assustadoras quanto as descritas em filmes de ficção, antes do mocinho conseguir bloquear o cronômetro do vilão que vai liberar o vírus.
Quando há um surto de doença infecciosa com alta rapidez de propagação ou em território muito amplo, há pouco o que se possa fazer. Não há estoques de vacinas ou medicamentos suficientes para tratar milhões de pessoas ao mesmo tempo. Quem se recorda da sensação de impotência ao tentar comprar antivirais na época da gripe suína, antibiótico na época das cartas com o bacilo antraz nos EUA ou tomar vacina contra a febre amarela no Brasil no ano passado não quer passar pela mesma situação novamente. Ter dinheiro não era o suficiente para conseguir tratamento.
Os sistemas de saúde também não estão preparados, em nenhum lugar do planeta, para tratar milhares ou milhões de pacientes simultaneamente. Há cem anos o mundo enfrentou a epidemia da gripe espanhola, que atingiu 1/3 dos habitantes do planeta e produziu uma mortalidade estimada em 5% da população mundial da época, algo entre 50 e 100 milhões de mortes. O agente infeccioso era um tipo de vírus influenza H1N1. Uma epidemia que, se atingisse a mesma proporção hoje, representaria 2 bilhões de pessoas afetadas e 350 milhões de mortos. Impossível conter, tratar e até mesmo imaginar tal catástrofe.
A Confederação Brasileira de Futebol tomou as medidas cabíveis, providenciou vacinas de reforço em todo o elenco e isolou o jogador do grupo. Tomara que tenham lembrado de vacinar todos os funcionários que tiveram contato com a equipe e suas famílias, senão o risco continua.
Na mesma semana uma outra notícia chamava a atenção para o time do Andradina, equipe da segunda divisão do Campeonato Paulista, que teve vários dos seus atletas diagnosticados com caxumba. O dirigente afirmou que foram mais de sete jogadores acometidos, mas o número exato era desconhecido. Os atletas foram dispensados e os que eram da região foram encaminhados para casa, o que pode levar a novos casos na área. Há pessoas e grupos que são contrários às vacinas. Acreditam que vacinas podem acarretar doenças e que suas “complicações” não valem o risco. Difícil discutir essa opinião com seriedade.
Vacinas são responsáveis por milhões de vidas salvas, nenhuma outra intervenção médica chega perto desses números. Complicações podem ocorrer, como em tudo na vida, mas o número é irrisório. As pessoas que não querem tomar vacinas ou que impedem que seus familiares sejam vacinados estão protegidas pela barreira vacinal da comunidade, mas são as brechas pelas quais o perigo entra. Devemos explicar esses riscos à exaustão para um melhor entendimento. Com tudo isso exposto, amigo leitor, sugiro que você encontre sua carteira de vacinação e complete as vacinas que estão faltando… mesmo que você não goste de futebol.
Artigo Publicado no Jornal Valor Econômico em 05 de julho de 2019